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publicado em:6/07/18 9:42 AM por: Marco Goulart Análise de Empresas

Preço e Lucro, um exemplo

Por Marco Goulart

 

Vamos explorar um caso da renda variável com o exemplo de um posto de gasolina. Você investiu $1 milhão em um posto de gasolina: terreno, loja de atendimento, bombas de combustível, troca de óleo, lava rápido, etc.

No primeiro ano seu posto vendeu um total de $200 mil, e teve custos de $100 mil, sobraram $100 mil. No final do ano o Sr. Felizberto aparece no seu escritório e faz uma oferta: “Eu quero comprar o seu posto de gasolina por $1 milhão!”.

Você olha para a sua planilha e pensa: “Mas $1 milhão foi o que eu investi no posto… Não vou vender pelo mesmo valor de jeito nenhum!”. Talvez você até pense em vender: “Ah eu estou cansado de trabalhar com isso, achei que seria diferente…”.

Você acaba não vendendo e mais um ano passa. O resultado de $100 mil do primeiro ano você utiliza para reinvestir no posto, melhorar os serviços, modernizar os sistemas do posto. Suas vendas e o seu resultado aumentam. E no final do ano lá vem o Sr. Felizberto novamente para fazer uma oferta. Mas dessa vez uma surpresa! A oferta é de $1,8 milhões!

Após uma olhada para sua planilha você percebe que tem uma decisão difícil para tomar. A primeira coisa que vem à mente é: “Porque o Felizberto aumentou tanto a oferta dele?” Então você faz umas contas e percebe que o valor investido no posto aumentou em 10%, e o resultado também aumentou 10%, passou de $100 mil para $110 mil.

“Ah! O Felizberto está de olho no crescimento do meu posto de gasolina! É isso!! Se eu continuar tendo esse crescimento deve fazer sentido o meu posto valer muito mais do que a oferta do Felizberto. Eu não vou vender!”

Dito e feito, mais um ano se passa. Você reinvestiu o resultado de $110 mil no posto para fazer melhorias e modernização da empresa.

Para sua surpresa o resultado no terceiro ano se manteve estável. As vendas cresceram, mas num ritmo muito menor do que anteriormente. Você faz as contas e percebe que o crescimento das vendas foi de 4,5% ((230-220)/220=4,5%), e o crescimento dos custos foi de 9,1% ((120-110)/110=9,1%). Felizberto novamente vem até o seu escritório (ô sujeito obstinado!) e faz a proposta: “compro o seu posto de gasolina por $1 milhão!”. E agora? Você vende? Não vende? Continua reinvestindo no negócio?

Você percebe que agora a oferta do Felizberto é menor do que todo o investimento que você já fez no posto de gasolina. De todas as ofertas que você recebeu essa foi a pior! “O que será que está acontecendo com o Felizberto? Será que ele sabe de algo que eu ainda não sei? Será que esse meu posto de gasolina vale muito menos do que parece?”

Você decide que é hora de parar de investir no posto de gasolina e utiliza o resultado do posto para outras necessidades pessoais. Então você distribui todo o resultado de $110 mil do terceiro ano na forma de dividendos[1], e não vende para o Felizberto.

Chegamos no quarto e último ano de nosso exemplo. O resultado volta a crescer, mas Felizberto não lhe procura. Você vai atrás dele e faz uma oferta final: “eu vendo o posto de gasolina por $1,3 milhões!”. Agora a decisão está com Felizberto…

Vamos explorar este exemplo para entender um pouco mais sobre o assunto de preço. Percebemos que a renda de uma empresa é variável, daí o nome renda variável. Podemos verificar que as ofertas do Felizberto também variam. Mas porque o Felizberto hora oferecia $1 milhão, hora $1,8 milhões? Como ele chegava nesses valores? Certamente ele não quer fazer um negócio ruim…

Utilizando os números de nosso exemplo podemos perceber que o investimento que foi feito no posto de gasolina nada mais é do que o patrimônio da empresa, o resultado do posto é o lucro, e a oferta do Felizberto é o preço que é oferecido pela empresa.

Se dividirmos o preço pelo lucro vamos perceber que no primeiro ano o Felizberto queria pagar 10 vezes o lucro da empresa. Isso significa que se tudo seguisse igual para a empresa nos próximos 10 anos, o Felizberto ia recuperar todo o dinheiro que ele investiu, somente através dos lucros que ele receberia do posto.

No segundo ano o preço oferecido foi muito mais generoso, 16,4 vezes o lucro do posto de gasolina. Percebemos também que nesse ano o Felizberto ofereceu um valor muito superior ao que foi investido no posto. A oferta dele corresponde a mais de uma vez e meia o patrimônio da empresa. Vimos que provavelmente este preço do Felizberto não é uma “generosidade”, ele tinha uma expectativa de que as vendas e lucros do posto crescessem nos próximos anos. Neste caso faria sentido ele pagar mais agora, para ter um lucro maior no futuro.

No terceiro ano o desempenho do posto não foi tão bom, e ai o preço do Felizberto foi muito inferior ao valor investido no posto. Ele queria pagar somente 80% do valor patrimonial do posto de gasolina.

O que queremos mostrar é que podemos fazer uma relação direta entre a oferta de Felizberto e os dados contábeis do posto de gasolina. Esta seria uma forma de entender o quanto se está pagando em relação ao que se está levando.

A lógica não é diferente daquela de uma dona de casa que vai ao supermercado e percebe que há um desconto em um determinado produto, se ela comprar 3 tubos de pasta de dente ela leva um de brinde. Ela pode fazer a conta e perceber que o valor por grama de pasta de dente acaba sendo menor se ela comprar na promoção.

A dona de casa está consumindo e por isso faz esta conta. Felizberto está investindo e então faz outras contas: Quanto estou pagando por unidades de lucro de uma empresa? Quanto estou pagando por unidades do patrimônio de uma empresa? A dona de casa vai ao supermercado. Felizberto vai a bolsa de valores, local onde são negociadas partes de uma empresa, conhecidas como “ações”. São títulos que representam a propriedade de uma parte de uma empresa, e dão direito a participar dos lucros desta empresa.

 

[1] Dividendo é a distribuição do lucro ou resultado de uma empresa para os seus donos. O dinheiro sai do caixa da empresa e vai direto para o bolso dos donos do negócio.



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Marco Goulart

Professor, pesquisador e planejador financeiro


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